sábado, 17 de novembro de 2012

Por qual motivo uma pessoa deve praticar a tradição dos Àwón Òrìsà (Orixás)?




Wándé Abimbólá

Traduzido por Mário Filho*



Extraído do livro Ifá Will mend our broken world: thoughts on Yorùbá religion and culture in África and the diáspora, de Wándé Abimbólá. (Massachusetts: Aim Books, 1997, pág. 33 a 37)



A vida na Terra é tão importante como a vida após esta. Cada religião representa um estilo de vida. As religiões que se baseiam no culto aos Àwón Òrìsà (Orixás) cuidam para que cada ser humano tenha uma relação harmônica com seus congêneres e com o resto da criação, de forma que levem uma vida plena de satisfação e felicidade.



Um dos pontos essenciais dessas religiões é que estas não partem da arrogância do ser humano, ao contrário de outras religiões que acreditam que toda a criação foi feita para sua própria satisfação e exploração. Não podemos esquecer que há seres criados que se encontram em níveis mais altos do que o nosso, por isso devemos saudá-los e lhes fazer reverência. As religiões de culto aos Òrìsà não se baseiam no materialismo. Não obstante, segundo diz Ifá, existem três coisas que os seres humanos desejam na vida:



Ire méta làwa n wá

Àwá n wówó

Àwá n wómo

Àwá n wá àtubòtán ayé[1].



Buscamos três bênçãos,

Buscamos a bênção do dinheiro,

Buscamos filhos,

Buscamos morrer em paz.



A bênção das coisas materiais é a menos importante das três. A mais importante é ter uma vida longa, tendo boa saúde e morrer em paz, seguida pela bênção dos filhos. Esses são os três objetivos da vida na Terra.



Quando alguém morre, existe a necessidade de saber se essa pessoa será feliz depois de sua morte. Não existe o inferno, mas existe o conceito de julgamento e castigo pós-morte.



Ifá diz:

E mo sìkà láyé o o ò

Nítorí òrun.

E mó sìkà láyé,

Nítorí òrun.

Bé e de bodè é ó rojó.[2]



Não faça nada maldoso na terra.

Já que irás para o céu.

Quando chegares ao portão (entre o céu e a terra)

Terás que responder (pelo seus erros).



É no portão que existe entre o céu e a terra que o julgamento tem lugar em nosso caso. Esse portão não está custodiado por um ser humano, mas por um carneiro cujo nome é Àgbò Mòmò. Ele é o guardião do portão entre o céu e a terra. Um verso de Ifá diz:



Ajá níí gba bodè ní Ìpóró,

Agbò níí gba bodèe Mòmò,

Ewúré níí gba bodeè bóki bòki.[3]



O cão é o guardião da porta de Ìpóró,

Àgbò, o carneiro, é o guardião da porta de Mòmò.

Ewúré, a cabra, é a guardiã da porta daqueles que não podem manter a boca fechada!



Quando se chegar ao portão que há entre o céu e a terra, haverá o julgamento e punição por aquilo que tiver feito. Se fez o bem será recompensado e poderá regressar à terra como um ancestral. Aqueles que não fizeram o bem não voltarão, tendo que transitar lentamente pelo que nós chamamos Òrun àpáàdì, que se assemelha ao inferno cristão[4].



Aqueles que seguem o culto aos Àwón Òrìsà (Orixás) quando morrem vêem seus ancestrais. A mesma coisa acontece com os cristãos ou muçulmanos. Nunca vi ninguém que estivesse morrendo dizer que via um anjo, ou via Jesus Cristo. As pessoas sempre vão encontrar seus ancestrais, talvez o pai que tenha morrido vinte anos antes, ou a mãe, irmão, irmã, tio ou tia que já tenham morrido. Quando alguém está agonizando e começa a lhe dizer: “Olhe para isso” ou “Minha mãe está aqui! Oh, mamãe, que bom vê-la”, nos damos conta que essa pessoa logo estará junto aos seus ancestrais. Conta-se, por exemplo, que os caçadores, os quais são todos devotos de Ògún, quando morrem, se reúnem ao pé de uma árvore de Ògún, no céu, e assam carne (de caça) para Olúmokin[5]. Em um verso Ìjálá[6] se diz:



Wón n be níbi ò gbé séyelé,

Kò sádìe,

Kò kúkú sí èmìnìkàn

Ti í dami obè é nù;

Kò kúkú sí kurúù ti í gbádiè.



Mo kílé

Ilé ò jé mó o.

Baba à mi, mo sàgò sàgò títí,

Onílé ò fohùn.

Mo ní “Níbo lonílé yìí wà.

Omo Oníwànnú,

Ó yúnko, Àbó ròde.”



Ode tí n be lóhùún pò jode ayé lo.

Àwon n be nídìí Ògún,

Eran ni wón n yan folúmokìn.

Òrun dèdèedè mó kàn-ánjú mó,

Gbogboo wa lá n bò[7].



Estão em um lugar onde não há pombos,

Onde não há galinhas,

Onde não há tremores

Que possam derramar a sopa.

Onde não há falcões que cacem pintainhos.



Cheguei em casa e fiz minha saudação,

Porém ninguém respondeu.

Meu pai, eu o saudei “àgò!”, durante algum tempo,

Mas ninguém respondeu.

Perguntei, “Onde está o dono desta casa?”

Filho de Oníwànnú,

Foi à fazenda,

Ou foi à cidade?

Os caçadores do céu são em maior número

Que os caçadores da terra.

Oh Céu, que está pendurado acima (de nós),

Oh Céu, não tenha pressa,

(Pois) Todos nós estamos chegando.



A chave para se chegar a uma idade avançada e com boa saúde, bem como ter uma excelente recompensa no céu, é Ìwà pèlé, caráter bom, gentil e amoroso. Assim, quando alguém de bom caráter morre, ele ou ela irá para um lugar bom (Òrun Rere), o céu onde moram seus ancestrais e onde vivem os Àwón Òrìsà. Por isso é bom cultuar os Àwón Òrìsà, tentando imitar as suas boas qualidades.

* Especialista em Ciência da Religião. Mestrando em Ciência da Religião (ambos pela PUC/SP).

[1] Esse verso é discutido por Wande Abimbólá em sua obra Ifá Divination Poetry (New York: NOK, 1977) (NT)

[2] Cântico recolhido de um Sacerdote de Ifá na Nigéria por Wande Abimbólá.

[3] Extraído do Odù Òkànrànsodè.

[4] Òrun àpáàdì significa “céu dos cacos de cerâmica”. As pessoas que são más aqui na terra são enviadas para lá afim de serem punidas.

[5] Olúmokin é um dos nomes pelos quais o Òrìsà Ògún é conhecido.

[6] Ìjálá é uma forma de poesia oral cantada, que possui um olhar especial para as ocasiões particulares da comunidade que é referida. Também é uma forma de se louvar o Òrìsà Ògún pelos caçadores antes de iniciarem sua caçada.

[7] Ìjálá cantado pelo falecido caçador Làmidi Ode Abonkaba, em Òyo, Nigéria, 1987.

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