segunda-feira, 28 de maio de 2012

A escroqueria racista e o balburdio midiático

Por:Patrick de Oliveira
Psicanalista, Filósofo,Ensaísta e Crítico da Cultura. É especializado em toxicomania/alcoolismo e em Psicanálise de Casal e Família. Membro efetivo da Associação Brasileira de Filosofia e Psicanálise - ABRAFP.


"...É no pelo do macaco que o bicho vai pegar...", assim Alexandre Pires anima o clip da sua mais nova música, que elege o dinamismo feminino e a esperteza do macho, tendo como demonstração de certa forma pejorativa a força de um gorila. Uma coisa é certa o racismo existe, e precisamos combater a negação do mesmo.
Como se sabe o clipe foi alvo de denúncia na Procuradoria Geral da República em Uberlândia (MG), cidade do cantor, por supostamente colocar o negro em condição de ser inferior. Conhecendo a trajetória de Alexandre Pires, não o acho racista em hipótese alguma, e acho que a procuradoria equivocou-se. O clip é uma brincadeira, fazendo alusão a esperteza do homem, ali presente artisticamente na figura do macaco. O cantor faz música romântica e quis traduzir a musica com esse clip artístico.
Racismo e Sexismo é outra coisa, e são essas outras coisas que acontecem todos os dias no Brasil, nos espaços de trabalho, nas agencia bancárias, nos processos seletivos, nos clubes sociais, no comercio, que precisamos denunciar. A vida numa democracia exige, que os pares, os cidadãos, tenham direito e deveres iguais. Poder se expressar sem ser julgado, confundido e/ou mal interpretado deveria ser um desses direitos.
Mr. Catra, Neymar e Alexandre Pires - três afro-descendentes, três brasileiros - uma música, um clip, mulheres, King Kong(s) e homens. Certa apologia à esperteza dos homens na conquista das mulheres, afinal os homens são fortes como os gorilas - assim o clip tenta expressar sua mensagem. Alguns viram nisso sexismo, e na ênfase dada ao gorila, macaco e negro, outros viram nisso o racismo. A música em si é apelativa, traduz bem nossa sensualidade brasileira, as mulheres cheias de visibilidade, o que é o nosso colorido sem igual, e o macho pegador.
São tantas músicas com este estilo como pano de fundo, não é? Se Alexandre Pires, não tivesse feito o clip, a música passaria despercebida, ou mesmo, tocaria nas melhores rádios do país, e seria super procurada no youtube, teria sido mais uma musica dançante e pronto. A questão é que entrou a cena, a visualidade, o macaco e a exposição da mulher e o homem forte e pegador.
Vendo por outro víeis, o pedido de desculpa de Alexandre Pires, fazendo uma auto-defesa chega ser romântico: “Sinto-me profundamente chocado com qualquer leitura racista ou sexista num clipe protagonizado por mim, negro com orgulho da minha cor, autor e intérprete de música romântica, sem que isso nunca tenha sido confundido com sexismo. Devemos tratar toda e qualquer brincadeira com macacos e gorilas como uma referência a ser apagada da nossa memória? King Kong, Chita, Monga, eram todos personagens com alguma leitura que não a do genuíno entretenimento? Não me consta que meu histórico deixe alguma dúvida sobre o meu respeito à mulher ou ao negro, e a edição deste filme em nenhum momento faz brotar qualquer insinuação similar.”
Não o defendo, não há necessidade disso, ele mesmo o faz em nome próprio. A questão me chamou muita atenção e percebo um perigo imenso nisso tudo - o perigo de não termos bom senso de saber do que se trata o racismo, e gerar uma guerra étnica no país em função de que tudo agora é racismo. Uma tia sempre me chamou de Negão, e eu nunca escutei o chamado dela como ofensa - um amigo de infância branco, hoje Juiz de Direito numa cidade no interior de São Paulo vendo ela me chamar de Negão também passou a me chamar de Negão, e confesso que meu amigo branco não me ofende - talvez um exemplo bobo, mas uma forma simples da gente não cair no marasmo e achar que tudo agora é prática racista. Não vejo nada de sexista e racista no clip, se for assim terá que montar uma Comissão para julgar um monte de clip, propaganda, mensagens que existem por aí - claro que muitas são racistas sim e precisam ser denunciadas.
Não estou fazendo defesa do Alexandre Pires, não me propus (no meu caso), a defendê-lo em hipótese alguma. Caminho sempre pelo instrumental que eu disponho para investigar determinado objeto (no caso aqui o clip do Alexandre Pires). O clip me fez visitar a história (com meu viés marxista), me fez analisar os fatos jornalísticos (aquilo que a mídia produziu) e ainda o que é o mais importante pra mim, já que sou psicanalista, poder analisar as motivações e as conseqüências silenciadas que estão em torno dos fatos.
Entendo que existe neste atual momento certo fervor histérico em torno das questões de praticas racistas, homofobicas e discriminatórias no Brasil e acho que isso precisa chamar muito nossa atenção, para conseguirmos visualizar as reais questões que estão por traz desse alvoroço todo. Digo novamente, existe o racismo, existe a homofobia, existe discriminação e existe um monte de outras coisas - mas a coisa não pode ser avaliada, analisada pelo boom, pelo frenesi da questão.
Existem questões encobertas que mesmo às escondidas são motivadoras e que estão para além, e é preciso situá-las, para que não percamos a causa, para que a luta anti-racista não vire uma banalidade. O balburdio do judiciário não me convence, não me anima e não me faz adepto - existe um movimento perverso muito grande na produção dessas leis anti-racistas e anti-discriminatoriias, que sob meu ponto de vista não atende a demanda como deveria.
Entendo que o clip de Alexandre Pires deveria nos chamar atenção para outras questões, que inclusive deveriam nos levar a debater, discutir e aprofundar o racismo em nosso país. Não podemos ser reféns de uma jogatina branca que transformou a questão do racismo em salada mista, nossas leis anti-racistas e anti-discriminatórias ainda necessitam de mais evidencias e coerências, elas não são claras e deixam lacunas imensas. Portanto questionar o fato de Alexandre Pires relacionar-se somente com mulheres brancas e não militar pela causa do negro como tem feito a mídia, é tapadismo, é bizarro e totalmente esdrúxulo. O racismo existe mas nem por conta disso tudo é racismo, o bom senso é fundamental. A paranóia não é a melhor opção, precisa-se construir meios mais coerentes de enfrentamento do racismo.
Penso que o Brasil necessita aprofundar o debate sobre democracia, acredito que existem questões em torno disso que são cruciais, e causadoras de dilemas sociais gritantes, tais como o racismo, a homofobia e discriminação de qualquer espécie. O que se chama de Movimento Negro, necessita de uma mudança de postura politica efetiva, uma vez que não é possível, é inadmissível, é injustificável alguém dizer que é mais negro que outro porque usa uma camiseta colorida ou o cabelo de determinada forma. As praticas de racismo se deslocam no tempo e no que se refere a marca da roupa usada, do penteado, e também da pele se é um pouco mais clara ou mais escura que a de outros negros. Quando alguém é racista, ela é racista pelo simples fato de que o negro é inferior, independe das formas pelas quais se estará vestido,qual marca, qual cabelo etc. Ou seja, os fatores independem de como se comparece. O peso gigantesco que se dá a roupa, ao cabelo, ou com quem transa, ou mesmo o quanto de dinheiro tem na carteira, bem como qual religião pertence são as marcas desse autoritarismo anti-democrático.

bloconarua.blogspot.com.br

Um comentário:

  1. Membro da Associação Brasileira de Filosofia e Psicanálise? E você não tem vergonha de se declarar membro dessa picaretagem? Quem quiser que veja no Reclame Aqui como esses lixos de associações fajutas estão acabando de vez com a imagem da Psicanálise no país (sob as vistas grossas das autoridades).
    http://www.reclameaqui.com.br/indices/lista_reclamacoes/?id=15670&tp=9403f4c8cd5af61c485541e9444950c069c79ffa&subtp=c92a9bc341d739044ff5400661d44a60a808be22

    ResponderExcluir