segunda-feira, 26 de março de 2012

O Sacerdócio de Ifá



Por:Chief Awodélé Ifáyemí

1. Olúwo

É um homem que estuda e pratica Ifá por muitos, muitos, e muitos anos. Não somente viu Òrìsà Odù, mas possui Òrìsà Odù, sendo um Olódu, aquele que tem Odù e que trabalha com esta divindade. O Olúwo é a única pessoa que pode iniciar homens dentro do rito de Ifá chamado Ìtélódù, um rito de iniciação masculina de Ifá, onde os homens podem ver Òrìsà Odù como parte de
sua iniciação. E, é claro, o Olúwo é o único que pode dar para alguém o Òrìsà Odù.

2. Babalaô

É um homem que foi iniciado em Ifá e completou no mínimo cinco anos de aprendizado com um babalaô ancião, e por isso, ganha o título de Babalaô, podendo ou não ter visto Òrìsà Odù.
Durante o período de aprendizado, todos os aprendizes de Ifá são conhecidos como Omo Awo.De uma maneira geral, um homem pode passar por dois tipos de iniciações:

a) se um homem passou por uma iniciação em Ifá em que ele viu Òrìsà Odù, este tipo de iniciação é chamada Ìtélodù15.
Estes iniciados em Ifá, se eles decidem ser sacerdotes praticantes,
podem participar de qualquer tipo de cerimonia que envolva Òrìsà Odù .

b) se um homem passou por uma iniciação em Ifá em que ele não viu Òrìsà Odù, este tipo de iniciação é chamado Ìte'fá. Estes iniciados em Ifá, caso decidam ser sacerdotes praticantes, não podem praticar diretamente nenhuma cerimonia que envolva Òrìsà Odù. Ele não tem permissão para entrar no quarto de Òrìsà Odù, mas eles podem fazer outras coisas de Ifá que não pertençam a
Òrìsà Odù. Estes babalaôs são conhecidos como Awo Elégan.
Algumas regiões fazem todos os homens iniciados verem Òrìsà Odù, enquanto outras regiões selecionam apenas alguns deles. O motivo de somente certos homens verem Òrìsà Odù é algo que não investigamos ainda, mas estas diferenças regionais são reais.

3. Ìyánifá

É uma mulher que foi iniciada em Ifá e completou no mínimo 5 anos de aprendizado com um Awo ancião, e eventualmente ganha o título de Ìyánifá.
Por padrão, todas as mulheres iniciadas que estão praticando o sacerdócio de Ifá, também se enquadram na categoria de Awo Elégan, por que as mulheres, sob nenhuma circunstância, podem ver, trabalhar, ou possuir Òrìsà Odù. A razão disto está além do escopo deste trabalho.
Existem muitas diferenças regionais sobre a questão das mulheres serem iniciadas em Ifá e/ou sacerdotes de Ifá.
a) algumas áreas não permitem mulheres ser iniciadas em Ifá, podendo somente realizar a cerimonia chamada Ìsé'fá, chamada também de Owófákàn, uma mão de Ifá, podendo ocorrer ao mesmo tempo outra cerimonia chamada Isodè16, quando a mulher que recebe o Idè Orúnmìlà, e deverá casar-se com babalaô, vindo a ser uma apètèbi.

b) outras áreas permitem mulheres serem iniciadas em Ifá (Ìte'fa) e venham a ser Ìyánifá, mas somente com permissão para jogar Ifá com òpèlè.
c) ainda temos ainda outras áreas nas quais as mulheres são iniciadas em Ifá (Ìte'fa), e podem jogar Ifá com ambos, ikin e òpèlè.
Entretanto, após pesquisas nas terras iorubá, descobrimos que não há um odù que proíba mulheres de jogar Ifá com ikin.

4. Awo Atémáãkì 17 [leia a nota, é importante]
São homens iniciados em Ifá (Ìtélodù ou Ìtefá), e mulheres iniciadas em Ifá (Ìte'fa), que após a iniciação em Ifá decidem que não desejam aprender e ser sacerdotes de Ifá. São pessoas que iniciam-se em Ifá simplesmente para completar seu destino.
Estas pessoas podem exercer o cargo de sacerdotes de Òrìsà, de Egúngún, etc., se desej ou podem decidir não ser sacerdotes, mas apenas cultuadores privilegiados por serem iniciados.
Todos os iniciados em Ifá que estão em aprendizado, são chamados de Omo Awo, que Chief Fama támbém chama de omoko’fá (omo òkó Ifá), estudantes de Ifá.18

Olórìsà

1. Eles precisam aprender todos os tabus e nomes de louvor do Òrìsà em que são iniciados.
2. Eles saber como alimentar (àkúnlèbo) e cuidar do seu Òrìsà.
3. Eles precisam aprender como preparar e trabalhar com seu Òrìsà.
4. Eles precisam saber como iniciar pessoas no seu Òrìsà.
5. Eles precisam saber como saudar seu Òrìsà.
6. Eles precisam saber como resolver efetivamente os problemas das pessoas através de seu
Òrìsà, ajudar as pessoas de sua comunidade, e ser um modelo de caráter.

Não sacerdotes
1. Eles precisam realizar o rito semanal de Ifá a cada 5 dias.
2. Eles precisam ser iniciados dentro do Ifá, ao menos para completar seu destino. Serão Awo Atémáãkì.
3. Eles precisam louvar todas as manhãs antes de começar o dia, a Olódumàrè, Orí, Irúnmolè.
4. Eles precisam agir com bom caráter e ensinar a seus filhos o mesmo.

Conclusão
Vimos no texto de Awodélé, a filosofia de alguns ritos de passagem desde a mais tenra idade,
até à iniciação em Ifá, e a importância social do verdadeiro babalaô na sociedade iorubá tradicional.
Vimos também, que o rito das mulheres iniciadas em Ifá possuem, in loco, diversas formas culturais e iniciáticas, de forma que não há um consenso neste tema. Do lado de cá do mar, não temos como afirmar qual rito é correto ou não. São eles, os nativos iorubas, do lado de lá do mar,
que devem chegar a um determinador comum. Se eles não o fazem, não seremos nós que faremos.
Também importante foi o registro de Awodélé da existência do babalaô Atémáãkì, que literalmente significa “bate palmas, mas não louva”, ou seja, é babalaô por iniciação, passou pelo rito, possui o título iniciático, mas não tem conhecimento suficiente para fazer Ifá. Como diz o próprio título, sua participação limita-se a “bater palmas”.
A diáspora afro-brasileira deve prestar atenção neste tipo de sacerdote iorubá que aqui apresenta-se como um alto iniciado em Ifá, mas que na realidade, não o é, apesar de ser um nativo iniciado.

NOTAS:

15 Trono de Odù, assentamento de Odù.

16 Isodè ?

17 Possivelmente significando “bate palmas, não louva”, cuja palavra pode ser composta por até (aplauso) + máà (adv.
de negação) + kì (louvar). Um babalaô que apenas bate palmas, pois não tem conhecimentos suficientes para louvar
e recitar Ifá, embora esteja autorizado a participar dos rituais. Existem vários deste tipo de babalaôs que ocupam
posição de destaque por possuir títulos iniciáticos, sem contudo, serem reconhecidos como verdadeiros babalaôs. A
maioria (talvez todos) os babalaôs brasileiros enquadram-se nesta categoria. São babalaôs por iniciação, não por
conhecimento. Dicionário utilizado: Abraham, R.C. 1962. Nota do Tradutor.

18 Chief Fama informa o nome omo-òkó'fá. (Fundamentals of the Yoruba Religion, Ile Orunmila Com.,1993, p. 21)

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