domingo, 5 de dezembro de 2010

O RITUAL FÚNEBRE / ÌSÌNKÚ

Antes de tudo, é importante frisar que para os Yorùbá o espírito não desaparece com a morte. Em sua cosmologia tradicional o Yorùbá não inclui uma crença ou percepção de "fim do mundo", eles ao invés disso, acreditam sim, num "ciclo da natureza", que nada pode destruir. Ou seja, acreditam que haja uma eterna continuidade da existência.

A Morte é como um novo Início na África Ocidental, o fato de morrer não é visto como uma tragédia em si, mas sim como um ritual de passagem ou de iniciação. Nascimento, morte e renascimento são um ato continuo em sua concepção e o espírito é preservado eternamente. Se receber um bom funeral, o falecido se tornará um antepassado. Os Antepassados são considerados como os mais poderosos membros desta sociedade. Na Cultura Tradicional do Oeste Africano, os Antepassados são cultuados diariamente. Os mortos são reverenciados e homenageados através de Culto, de sacrifício, de festivais anuais e pessoais. Desta forma, os falecidos são incorporados ao quotidiano. Funerais são eventos comunitários duraram vários dias. As aldeias quase param durante a duração destes funerais, de modo que todos possam assistir. Este período preliminar entre a morte e a conseqüente ascensão para a Ancestralidade é um período crítico que deve ser tratado adequadamente. Funerais são demonstrações públicas de solidariedade e incluem festins, música, dança e celebração. Estas celebrações elaboradas asseguram que o espírito do defunto fique satisfeito e que este fará uma boa e próspera viagem à vida após a morte.
O texto aqui apresentado tem por base várias pesquisas de Web, bem como nossa tradução do notável trabalho da pesquisadora Margaret Thompson Drewel's, que realizou diversos trabalhos de campo na Nigéria durante os anos 80, local onde estudou profundamente as tradições Yorùbá, dentre elas, as de caráter fúnebre. Daremos agora um olhar mais apurado nos Rituais de Funeral segundo as Tradições Religiosas e Culturais dos Indígenas do Oeste Africano, em particular a Yorùbá. Existem muitos tipos funerais na Sociedade Yorùbá, mas o Ìsìnkú é o funeral que exorta todos familiares a ter esperança, pois é a cerimônia específica para aqueles que morreram no devido tempo, ou seja, é aquele realizado em honra a quem tiver morrido exclusivamente de velhice. Para melhor compreensão do texto sobre Ìsìnkú, vejamos o que vem a ser a Sociedade Osugbo(Ogboni) e qual sua função nesse rito:

Os Ogboni ou Osugbo
- Os Ogboni / chamados Osugbo em Ijebu( Ogbon = sábio e Eni = um que é / Ogboni = Um que é sábio), ou Omò Ìsìn (os filhos do Senhor da Religião ) buscam diariamente através do estudo, de rituais e cerimônias seu aprimoramento religioso e espiritual, buscam ainda excluir de seus sentidos os defeitos dos sentimentos impuros que comumente permeiam o ser humano. Os Ogboni se fazem chamar entre si de Omo Òdúà (os filhos de Òdúà), a energia primaria Ancestral símbolo da criação, é a grande deidade bicéfala do panteon yorùbá denominada Asipelu que representa a união do masculino e do feminino. (Òdúà = nossa existência) Odùdúwà e Òdúà são energias diferenciadas em nossa Religião, então vejamos um pouco mais sobre isso:

- Òdúà:
Existe um Itan Ifá que nos conta o seguinte: Òdúà e Obatala viviam dentro da cabaça um sobre o outro, Òdúà vivia no fundo e Obatala em cima. Òdúà ficou cansada de viver dessa maneira e reclamava o tempo todo para Obatala que com raiva, em meio à disputa acabou rasgando seus olhos deixando-a cega. Embora se desconheça outra referência à suposta cegueira de Òdúà, entendemos que ela é lembrada como uma energia reguladora, afinal é ligada a vida bem como a morte, tendo também estreita relação com os Egún, devido a esta relação, é que se entoam Orins homenageando-a quando se realiza o Oro Egúngún.

- Odùdúwà:
Ficou conhecido como o pai e fundador de Ilè Ifé, ele seria filho de Lamurudu um dos grandes reis muçulmanos, Odùdúwà é considerado como o Antepassado dos Yorùbá.
Durante o reinado de seu pai, ele foi muito influente e converteu mesquitas muçulmanas em templos de culto. Seu principal objetivo era o de transformar a religião de seu estado, contou com a ajuda de um Sacerdote Asara. Este Sacerdote tinha um filho chamado Braima, e este era muçulmano, e devido a este fator, ressentiu-se com a imposição de um outro Culto. Odùdúwà ordenou a todos os homens, que num período de três dias caçassem para preparar um festival em honra de Òrìsà. Braima ressentido aproveitou a oportunidade e junto com seus guerreiros foi destronar Odùdúwà. Braima destruiu os templos ídolos com um Àsé. Deixando este àsé no pescoço do chefe. Este ato provocou uma guerra tribal, onde Lamarudu foi morto, e Braima acabou sendo queimado vivo, após este fato, Odùdúwà foi para o Leste, e junto de seus seguidores levou seus ídolos para onde seria Ilè Ifé, hoje a atual Nigéria. Odùdúwà jurou para sua descendência se vingar contra os muçulmanos de seu país. Mas morreu em Ilè Ifé. Seu filho mais velho Okanbi, também conhecido como Idekoseoke, também morreu em Ifé. Deixando como descendentes sete príncipes eram eles: Olówu, que se tornou rei de Egbá; Onisabe, que se tornou rei de Savé; Orangun, que reinou em Ila; Óòni, que foi soberano de Ifé; Ajero, que se tornou rei de Ijerò; Alákétu, que reinou em Kêto; e o último deles, o mais jovem, Òrànmíyàn, que se tornou rei de Oyó.

Tendo sido vista a diferença entre Odùdúwà e Òdúà, retornemos a conclusão do que seja a sociedade Ogboni, usando como exemplo o Itan a seguir: - Conta uma antiga lenda que no principio da criação, Ìyámí, a grande mãe Ancestral deu a luz a 16 filhos. Os dois primeiros chamavam-se Ogbo e Oni. Determinada época começaram a lutar entre si trazendo o caos e al desordem universal. Vendo Ìyámí que seus dois filhos provocariam a destruição, pegou ambos e lhes obrigou a fazer um pacto de irmandade, jurando ante seu "Edan" (amuleto sagrado) que nunca, mas lutariam entre si, nascendo assim a primeira Sociedade Secreta do mundo que teria seu nome de acordo com os nomes dois irmãos unidos: Ogbo+Oni, ou seja, A Sociedade Secreta Ogboni, temida e respeitada por todos os que a conhecem, é a segunda corte judicial dos yorùbá. Ela tem como finalidade principal à proteção da comunidade, e o estabelecimento da ordem em geral, assim como executar os castigos a que eram submetidos os que violassem as leis estabelecidas. A esta sociedade somente pertencem aqueles que guardam um comportamento ético, moral e social exemplar, não importando o nível intelectual, raça, procedência social, nem mesmo o sexo.

Esta é uma Fraternidade Yorùbá composta de Chefes e Anciãos, tendo um alto caráter religioso, eles possuíam grande autoridade na administração local. Suas representações mais conhecidas são duas imagens de bronze conhecidas como "Edan" sendo este, o centro do Culto Osugbo. Pode-se dizer que este já foi a maior fraternidade de Culto Yorùbá, e que devido a sua influência adquiriu o respeito e obediência de todos. As Mulheres eram admitidas no início. Para ilustração do assunto, apresentamos os Títulos da Sociedade Ogboni / Osugbo em sua ordem de precedência:

1. Odele Olurin
2. Oliwo
3. Apena
4. Akonoran

Eles possuíam funções diferentes na Osugbo, o Apena é o Chefe Administrativo da Sociedade. Nesta Egbé havia ainda, um círculo interior conhecido como a Iwarefa, constituído por apenas seis membros, incluindo-se o Apena e o Odele Olurin. O Oliwo e o Akonoran não faziam parte do circulo Iwarefa. A Osugbo era a executora das leis locais, e aplicava a justiça conforme os delitos cometidos, inclusive os de ordem capital. Os membros da Egbé Osugbo eram também membros da Owa (corte do rei).

Finalmente tendo lido os pormenores complementares dos textos anteriores, vamos a conclusão e conseqüente compreensão do que seja o Ritual de Ìsìnkú.
O Enterro
Ìsìnkú: O enterro propriamente dito, tem a participação exclusiva da família do falecido, bem como da sociedade Osugbo (membros da Sociedade Yorùbá de Anciãos). Os Osugbo são incluídos porque estão mais próximos dos Antepassados, e possuem grande quantidade de conhecimento bem como de poder dentro da comunidade. O ritual realizado pela Osugbo é iniciar o falecido no "Grupo de Antepassados". Depois do sacrifício feito, o cadáver e o caixão são cuidadosamente lavados e preparados. O corpo é posto em um tapete especial, que vai servir a uma finalidade ritual mais tarde. Em seguida, o corpo é transferido para o caixão e é fechada a tampa. O filho mais velho do finado bate sobre o caixão por três vezes encomendando a alma deste, o ato é acompanhado pelo oficiante do ritual fúnebre. Finalmente, o oficiante providencia para que o caixão seja colocado no túmulo completando-se assim o enterro propriamente dito.
Este Ìsínkú (Ritual Fúnebre) envolve sete dias de Rituais (Etutu) com a finalidade enviar o espírito do falecido ao domínio Ancestral. Sabendo-se que na concepção de funerais Yorùbá, o (Èmí) espírito não desaparece com Ikú (a morte), ao contrário disso existe uma expectativa de que este espírito volte a reencarnar em um recém-nascido da mesma família. Então, de certa forma, um funeral marca o fim, bem como um início de uma nova vida. O Ìsinkú é muito ritual sagrado e dispendioso, por causa dos altos custos, a família estabelece uma data com muita antecedência, para que eles tenham tempo suficiente para se preparar. Devido a este fator, o funeral pode ocorrer em qualquer lugar a partir de um mês até um ano após o primeiro enterro. Os Rituais desta cerimônia fúnebre tem a duração de uma semana, eles são o Ojo Ìsinkú, Itaokú, Irenokú e o Ijekú, vejamos a definição do que seja cada um:
O Ojo Ìsinkú:
- Ojo Ìsinkú ( Dia do Funeral ) é o primeiro e mais importante dia do Ritual funerário.

Durante Ojo Isinkú, a família recebe dinheiro de parentes para comprar bebidas e os alimentos para todos os convidados da cerimônia fúnebre. A primeira cerimônia pública é um espetáculo de dança e jogar. Músicos são contratados para acompanhar os familiares dos falecidos em torno cidade para cantar e dançar em honra ao seu parente falecido. Quanto mais pompa for demonstrada no cortejo em toda a aldeia, maior terá sido a importância social do falecido. Portanto, na concepção local, quanto maior for o status social do falecido, maior será a pompa a ser demonstrada pelos parentes em seus ritos funerários. Este dia principal termina com a invocação do espírito, quando então, os familiares do falecido transportam seu "tapete" para a saída da cidade onde está localizada a grande encruzilhada, ao fazê-lo, enviam a alma do finado para se juntar a dos outros espíritos Ancestrais. última

O Itaokú:
- Itaokú ( Itaokú ) é o terceiro dia, reservado para o banquete comunal e a festa.

O Itaokú é reservado para o banquete comunal e festa. Os parentes próximos do falecido fornecem alimentos para a comunidade, que comem e bebem com os amigos durante todo o dia. À noite um carneiro deverá ser sacrificado para os Antepassados por um dos "Fazedores de Reis", ou seja, sacrificada por um "Atejumole" dentro da Egbé Osugbo, mais especificamente na Igbó Oro (Floresta de Oro). O que ocorre nesse ato, é o ritual de abertura da voz do Antepassado falecido, durante este rito será ouvida pela primeira a sua vez a sua como Ancestral. Acredita-se que a voz de Oro neste rito, seja na verdade, a do espírito recém-enterrado que veio participar de seu funeral. Na seqüência deste ritual, o Atejumole (encarregado dos rituais ) pede ao falecido para acompanhar os demais Ancestrais familiares em procissão até cidade para abençoar os parentes que lhe proporcionaram um enterro digno. As mulheres da família não terão acesso a esta parte do ritual, pois estarão enclausuradas em seus quartos. Elas são estritamente proibidas de testemunhar este o rito, porque se acredita que elas possuem certos poderes mágicos, e que poderiam acabar interferindo no ritual.

O Irenokú:
- Irenokú, (Irenku) é o quarto dia, o dia em que se realiza
a consulta Orácular.

Durante o Irenku, a família e amigos realizam um cortejo pela cidade celebrando seu sucesso no desempenho de um bom enterro, e também para pedir a aprovação do falecido. Música e dança tem lugar durante todo o dia, em uma exibição muito mais elaborada do que o primeiro cortejo. O cortejo pára em determinados pontos ao longo do caminho, onde se encontram os parentes do falecido, depois segue em frente até o local onde foi previsto para ele ficar em definitivo.

O Ijekú:
- Ijekú, (Ejeoku) é o sétimo dia, marca o fim da Ìtadógun (período de sete dias) da celebração do ritual fúnebre. Esta semana ritual é vista como parte do sacrifício em honra ao falecido. Sendo que é no Ejeoku da Ìtadógun, a ocasião em que os filhos do finado vão alimenta-lo com inhame, peixe, sopa, etc. Após este sacrifício, terá lugar um outro na Igbó Oro, local onde o Antepassado se revelará mais uma vez, porém desta vez, sendo acompanhado da música tocada nos tambores Agba no Ritual Asipelu. A voz do Antepassado corresponderá à música dos tambores. A Egbé Oro ( Awon Alagbalagba l'òru - Os anciãos da noite ) bem como os parentes do sexo masculino acompanharão a voz que os "abençoará e agradecerá". Mo dukpé awá! Espero que tenham apreciado o texto, agradeço pelos complementos que acharem necessários, ire o!


( * ). Quando nos referimos a "custos", são os referentes ao preparo das cerimônias, afinal serão sete dias em que uma aldeia praticamente para em honra ao falecido, não esqueçamos também que Owo (dinheiro) é àsé. Portanto quanto maior for a pompa, e conseqüentemente maior o custo, maior também será a homenagem a ser prestada pela descendência ao seu futuro Ancestral. Quando o texto acima, que se refere a custos, referia-se a despesas gerais mesmo, ou seja, os alimentos, bebidas e etc. Tudo será fornecido e custeado pela família, por causa disso é que eles tem um período de um mês para se preparar, más este prazo pode chegar até a um ano, para que então se execute o Ritual de Ìsínkú. Quanto a cobrança pelos Etutu, não são cobrados, porém há uma consciêntização de que o sacerdote tem família também e que este precisa viver, e é esta a concepção africana. Pelo que compreendo, Ifá nos diz que, a soma a ser paga deve agradar a ambas as partes, claro que não me refiro ao Etutu em si, más sim aos diversos procedimentos Oráculares, Festins, Cortejos Fúnebres, Músicos, toda a parafernália necessária, bem como um determinado valor para as Egbés envolvidas nesse suntuoso ritual. Diga-se de passagem, que a família vê este esforço feito, como uma forma de demonstrar o valor e também a honra que depositam no finado. Permitam-me uma pequena observação, jamais devemos olhar estes costumes sob o ponto de vista ocidental, pois a forma de pensar africana difere em muito da nossa. Ire aikú Bàbá wá!
Fonte:Maríwò

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