domingo, 5 de dezembro de 2010

Nàná Buruku – Nà Bùkùú

Nà Bùkùú é sem duvida uma das mais antigas divindades agregadas ao Panteão das Divindades Iorubanas. Senhora das Aguas lamacentas dos pântanos, açudes, alagados das florestas e savanas. Divindade das aguas primordiais existentes antes mesmo da primeira tentativa de se estabelecer vida na Terra. Embora as águas lamacentas tenham a aparência morta, guardam em suas profundezas o segredo da vida, a síntese de Nà Bùkùú os mistérios do renascimento. Sua origem ainda continua na obscuridade, mas seu principal templo, nos dias atuais, encontra-se na Cidade de Atakpamé, a 161 km ao norte de Lomé, Capital do Togo e em Adéle onde de encontra o local de peregrinação de seus adeptos. Esta peregrinação ocorre a cada três anos e tem a duração de três meses, de outubro a dezembro. Senhora do Inabitado País da Morte, descrita na mitologia iorubá, como a mãe de Soponná, Omolu Arawe, Omolu Idji Aguna e Nà Yyógbáyin.
A palavra Nàná é um termo de deferência empregado entre o grupo étnico Ashanti de Gana, para designar as pessoas idosas e respeitáveis; na atualidade este termo se refere a “mãe” entre o povo Guang do atual Gana. Por outro lado, é preciso ressaltar que entre os povos de etnia Ewe Fon da Republica do Benin, antigo Dahomé, a palavra Nene de pronuncia “Nãnã” significa “Mãmãe”. Entretanto Nà ou Nàná, não corresponde a nenhuma palavra inserida dentro do idioma iorubá, que designe esta magnifica divindade. Diferente do termo Burúkú que possa ter sua origem, na junção de duas palavras burú – doente e ìkú – morte; o que levaria a interpretação da palavra burúkú como “adoecer e morrer”, termo este designado a Sòpònná na antiga Cidade de Ketou, Baba mi oruko o ba mu Buruku mu – Buruku é o nome que convém ao meu pai.
Esta divindade esta estritamente relacionada com Ìkú – A Morte Oju Ìkú ko jiwo – Não podemos olhar nos olhos da Morte e assim como seu filho Obalùàiyé com algumas doenças infecto-contagiosas. A malária ou paludismo, doenças infecciosa aguda ou crônica transmitida pela picada do mosquito, uma das epidemias que mais mata, pertence à Nàná, visto que as larvas deste protozoário parasita, assim como outros desenvolvem-se em águas paradas, sobre tudo nos pântanos. Em uma de sua louvações ouvimos Omi a dake je pa eni – Àgua adormecida que mata alguém sem preveni-lo.


No Togo, comenta-se muito a respeito da honestidade do clã Nà Bùkùú, onde a tradição do Culto a Nàná, exige que seus descendentes levem uma vida absolutamente acima de qualquer censura. Realizam juramentos acerca de inúmeros deveres, proibições e procedimentos legais. Os altos dignatários do culto não podem realizar trabalhos para fins maléficos, do contrário aqueles que os realizam ficará doente e morrerá. As pessoas iniciadas e consagradas à Nàná são vetadas aos atos de escarificações ou tatuagens, igualmente para aqueles que nascem sob o domínio do Odú Ogbe Òsé, o signo onde nasce as escarificações, figuras de Ifá pertencentes a Nàná e dos quais em seus aspectos negativos relatam sobre doenças infecciosas do sangue. As sacerdotisas de Nà Bùkùú não podem ser tocadas por nenhum homem. As mulheres iniciadas e consagradas a Nà Bùkùú que dão nascimento a filhos Àbíkú, prometem os recém-nascidos à Ela e se ainda não tiveram, promete-lhe o primogênito.
Em nosso país, à Nà Bùkùú oferecemos o Àgbò Ogufe – carneiro castrado e Àgbébò – aves fêmeas. Em determinadas regiões da Nigéria e do Togo, o carneiro é substituído pela Èkiri – cabra selvagem e ainda se oferecem a esta divindade o Abo Màlu – vaca. Em algumas outras localidades somente se oferecem animais do sexo masculino e aos adeptos de Nàná são proibidos de oferecer ou fornecer cachorro ou porco destinado ao sacrifico para qualquer outra divindade. Dentro dos ritos de sacrifício – Orò Pìpa, não deve servir-se com uma faca comum, mas através de outro procedimento. Em determinados ritos, a faca convencional e substituída por uma faca inteiramente talhada em madeira, de determinada árvore. Em um de seus louvores dizemos: Nà Okiti Kata Inie pá àyié, A pá eranko ma l'obe – Nàná Divindade Poderosa que mata na terra, Ela mata o animal sem utilizar a faca. Os mitos relatam um personagem mítico de nome Oseni, do qual ensinou aos seguidores de Nà Bùkùú como elas deviam proceder com o sacrifícios de animais. Em uma parte do mito diz que a cabeça do animal deveria ser segurado de uma forma especial, de tal modo que estes morresse por si só. Em seguida, para cortá-lo, só tem necessidade de utilizar a faca de madeira.
Existem vários mitos publicados, assim como a repetição exaustivas de cópias dos copistas sobre a rivalidade entre Nà Bùkùú e Ògún; essa suposta luta entre divindades, pode ser interpretada por uma oposição entre o ritual instituído pela Deusa Antiga, em uma época em que o ferro ainda não era conhecido, e o novo ritual estabelecido quando o Deus do Ferro surgiu e era preciso levar em conta sua existência. A atitude dos povos que prestavam-lhe culto, consistia simplesmente na fidelidade do ritual antigo, no qual não se podia matar com uma faca de ferro, devido ao fato que o ferro ainda não era conhecido. Mas o mito sobre a questão de Ògún matar o animal de estimação de Nà Bùkùú a bela e formosa Egbin – uma antílope o que causou a desavença entre as duas divindades, muitos desconhecem. Importante mencionar que as interpretações engenhosas, mas infelizmente muitas delas inexatas, mostram o quanto é necessário ser prudente em se tratando de interpretação cosmogônica destinadas a provar uma teoria preestabelecida.
Do outro lado do Atlântico, os animais oferecidos à Nà Bùkùú são sacrificados de uma maneira diferente da nossa, ou seja, os adeptos entoam cânticos e orações até que os animais caiam fulminantes. Entretanto os antigos descendentes de escravos na Bahia realizavam a tradição de seus antepassados. Cabe ressaltar que outrora existia uma cerimônia destinada a “detectar ladrões”, onde a pessoa que acusa outra, cada uma dela pega um frango, vai visitar o Oli Bùkùú – Sumo Sacerdote e conta-lhes o que esta acontecendo. Existem duas cascas de árvores, uma masculina (venenosa) e outra feminina (não-venenosa). O sacerdote corta uma parte da cada casca, que moi em cima de uma pedra especialmente destinada a essa finalidade, chamada Òkúta Oró (a pedra do veneno). Ele despeja o pó em uma pequena cabaça – àdó, despeja água dentro dela e dá de beber a cada frango. O frango da pessoa culpada morre. A intenção de descrever esta cerimônia, esta no fato que podemos admitir que neste tipo de ritual o animal seja envenenado, antes de ser oferecido a Nà Bùkùú. A principio devemos esclarecer que antigamente, assim como nos dias atuais os animais oferecidos a Nà Bùkùú não devem ser consumidos.
Em uma época remota tradição local do culto, determinava que todo criança nascida com deficiência física, deveria ser atirado em uma Lagoa Sagrada. As crianças deficientes que chegassem a adolescência e a deformação fosse confirmada, levam-no a uma floresta e fazem-no beber a água na qual foi colocada a casca moída. Se a pessoa morrer, é enterrada ali mesmo. As “almas” daqueles que foram sacrificados desta maneira, tornam-se os filhos-espíritos-ancestrais de Nà Bùkùú, representados pela nervuras de folhas da palmeira, atadas dentro do Ibiri – seu principal emblema ritualístico que a Grande Mãe carrega em seu seio. Acreditasse que assim como Soponná nasceu de Nà Bùkùú o Sasara-owo teve a sua origem no Ibiri. A diferença esta no segredo “acomodado” dentro deste e por seu expressivo topo curvado, mas a verdadeira essência de ambos são as mesma, ou seja, aquela que caracteriza a sua relação com os espíritos ancestrais.
Seus segredos são acomodados em recipientes de barro, principal elemento na natureza a lama primordial da Mãe-Terra. Suas folhas dentro da liturgia , são espécies vegetais agrupadas no compartimento água e as raízes lamacentas do ewé òsíbàtà (Nymphaea lotus L., Nymphaeaceae) conhecida popularmente por nenúfar ou flor-de-lótus são um de seus principais fundamentos. Veste-se de branco e seus colares são de contas brancas rajadas de um azul anil, bem como aprecia o uso de búzios em colares, roupas e todos os seus ornamentos. Sua cozinha ritualística é a base de milho-de-canjica, arroz, feijão fradinho, quiabo, amendoim, vegetais, cebola, camarão, azeite-de-dendê e bebidas fermentadas.
Fonte:Baba Guido

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