terça-feira, 28 de dezembro de 2010

MEDICINA TRADICIONAL IORUBÁ

Em nenhum período na História da Humanidade, esteve o homem sem algum tipo de Filosofia Médica, por mais curioso que isso possa parecer aos olhos da sociedade moderna. Nossos mais remotos ancestrais baseavam sua teorias médicas quase que inteiramente na magia, denominada entre o povo iorubá de idán, e tinham como certo, por exemplo, que a doença de um enfermo poderia ser transferida para um objeto inanimado como uma árvore ou mesmo para um animal. Os que detinham este poder eram denominados na antiguidade de bruxos ou feiticeiros e dentro da Cultura Iorubá, estes são chamados de Osó.

Outro princípio da Medicina Tradicional dos povos antigos, poderia ser chamado de Lei da Similaridade. De acordo com essa lei, acreditasse que seja possível determinar por certas características externa de uma planta, erva ou flor em particular, o tipo de doenças que se esperava que ela aliviasse ou curasse. Veremos mais adiante como a Medina Tradicional Iorubá, enquadra na referida Lei.

No centro da teoria primitiva está a doutrina de que a morte e a doença podem ser causadas por magia maléfica, por ordem de um inimigo contra uma pessoa ou comunidades. Um fato curioso que mesmo hoje existam comunidades no mundo para cujos os membros o termo “morte natural” não tenha significado, a morte sendo considerada como uma intervenção sobrenatural do processo da vida que normalmente continuaria para sempre.

O oficio de Onísègun, aqui denominado de médico curandeiro, preparavam suas receitas de uso medicinal denominados de oògùn baseados puramente nos elementos da natureza. Essa função exige deste um vasto conhecimento do uso das plantas para a preparação de receitas e remédios tradicionais; seus diversos nomes e as curtas frases, denominadas de ofò – encantação os quais enunciam suas qualidades terapêuticas. Essas encantações, definem a ação esperada da planta em questão comportam um verbo geralmente monossilábico que figuram no nome da planta, servindo assim para auxiliar a memorização, e que este “verbo atuante” da encantação pronunciada também, é uma das sílabas do nome da planta utilizada. O Onísègun se submetia a um longo e difícil aprendizado, já que uma mesma planta possuía nomes diferentes. Este se dava ao fato de caso a sílaba necessária para que uma receita ou ação se cumprisse não figurasse no nome da planta, este era substituído por outro nome onde a sílaba (verbo atuante) estivesse presente e, por conseqüência, outro nome era dado a mesma planta.

Na Medicina Ocidental o conhecimento do nome científico das plantas usadas e sua características farmacológicas são indispensável, contrário da Medicina Tradicional Iorubá, onde o conhecimento dos ofò transmitidos oralmente são o essencial, pois carregam em seu interior a definição da ação esperada de cada uma das plantas que entram na manipulação da receita. A Poesia Iorubá, inclui uma rima fonética, semelhante aos Mantras Hindu e essa rima fonética leva a força de realização do àse, induzido pela vibração mental daquele que o profere, afim de ativar as energias que necessárias para a elaboração dos complexos remédios e “trabalhos mágicos”. As rimas fonéticas serão pronunciadas rítmica e pausadamente ou simplesmente cantadas durante o processo de confecção de uma “medicina” em questão.

O Odù Ogbe Òtùrùkpòn nos revela que Òrúnmìlà saiu em busca de Òsányìn – A Divindade da Flora e da Fauna, habitante da floresta, Grande Sábio nos preparos de remédios e das magias, conhecedor dos encantamentos que davam suas poções curativas forças para vencer as enfermidades... ao que se sabe, ninguém poderia se aproximar de Òsányìn com risco de ser queimado com seus carvões incandescente... Òrúnmìlà tendo o devido conhecimento da questão, consulta o oráculo e realiza as oferendas determinadas por Ifá... neste citado Odù, Òrúnmìlà recolhe várias folhas e com estas prepara um Àgbo – De cocção vegetal e sai em busca do “Senhor das Folhas”... ao encontrar Òsányìn como de costume com todos aqueles que atrevessem entrar em seus domínios, lança suas brasas em direção a Òrúnmìlà, entretanto a sua frente encontrasse um pote com o líquido extraído das plantas e todas as brasas lançadas não atingiam Òrúnmìlà a não ser cair dentro do pote apagando-se por completo... foi então que Òsányìn indefeso contra Òrúnmìlà celebra um pacto em ajudá-lo a combater a todas as enfermidades, mas que em cada um dos preparos com o “sumo das folhas” deveria haver um carvão incandescente para transmitir a este “trabalho” o àse de Òsányìn...

Òsányìn passa a ser o principal assistente de Òrúnmìlà, mas de vez em quando, ousava em não obedece-lo, se escondendo na mata e não realizando os serviços ordenados por Òrúnmìlà. Essa não subordinação, se dava ao fato de que Òsányìn é o verdadeiro conhecedor das virtudes e das propriedades medicinais e mágicas das plantas e as vezes Òsányìn se sentia usado por Òrúnmìlà. O Odù Ìròsùn Òsé, menciona que Sàngó tomando conhecimento do fato de Òsányìn estar escondido de Òrúnmìlà na mata, este envia vários raios que atingem o deixando deformado e assim Òsányìn jura obedecer para sempre as ordens de Ifá. Após o fato ocorrido, fica estabelecido que Òsányìn para entregar seu poder completo, deveria expor ao fogo e ao calor as preparações medicinais.

Através dos tempos a Medicina Tradicional tem sido substituída pela Medicina Moderna e assim substituindo os remédios naturais e a Ciência da Curar, dos quais legaram nossos antepassados, por remédios sintetizados em laboratórios. Em todas as partes do mundo a Medicina Natural existe à séculos, mas não podemos negar o fato de que a Medicina Tradicional mais completa e exata conhecida é a Medicina Iorubá. A Medicina Iorubá está ressaltada por seu caráter científico , por sua ampla diversidade, sua lógica e sobretudo, pela beleza poética atribuídas aos encantamentos, que como vimos, dão o poder vital e mágico aos preparos medicinais.

Todas as enfermidades provêem de um vírus ou bactérias e esta palavra na Medicina Tradicional Iorubá significa “veneno”, baseado no sentido da toxina liberada por esses micro-organismos.

O Odù Òyèkù Ogbe, cita... Ode s'àpo yo ro Òsányìn m'oya tu àpo yo oògùn... “O Caçador abre a sacola e saca o veneno, Òsányìn abre a bolsa e saca o antídoto”

Esta metáfora significa que “cada veneno tem seu antidoto” e “cada enfermidade tem sua cura”. Esta Tradição Oral está especificamente no princípio da polaridade das Leis Herméticas e que neste caso pode-se afirmar categoricamente que através do mesmo “veneno” se elabora o “antídoto” como no caso das vacinas. Os que praticam a Medicina Tradicional Iorubá, acreditam que as enfermidades estão contidas em pequenas bolsas dentro do corpo, entende-se que essas “bolsas” são as centenas de glândulas espalhadas pelo corpo inteiro e que devido a vários fatores, tais como o consumo excessivo de álcool, substâncias tóxicas, exposição a substâncias cancerígenas, aqueles que excedem os limites de sua capacidade humana; quando isso e outros fatores ocorrem, essas “bolsinhas” se rompem, liberando os micro organismos na corrente sanguínea, que desencadeiam a doença até então inerte.

A principal base da Medicina Tradicional Iorubá, está estruturada na crença de não somente curar a doença como o de aniquilar estes micro organismos quando ainda estão inativos. Para que os remédios sejam eficaz, devem empregar uma combinação de substâncias amargas – o koro, picantes – o ta e ágria – o kon. Preparos esses que podem serem aplicados no corpo ou ingeridos de acordo com a receita prescrita, pois as substâncias que contém estas combinações matam os germes causadores de diversas enfermidades. Muito comum, observar nas mais diversas receitas de remédios tradicionais, a adição de ovos de aves, substâncias adocicadas e alcoólicas, pois essas substâncias tem o poder de atrair e agrupar os germes, seria como uma espécie de armadilha, para que os micro organismos “consumam” os ingredientes do medicamento e possam ser exterminados. Ao mesmo tempo cada remédio dentro da Medicina Tradicional, contém substâncias purgativas e depurativas do sangue, com a finalidade de provocar rápida e abundante evacuação intestinal e urinária para que os excesso de toxina viral seja liberada do corpo.

Se faz notar que quase todas as preparações da Medicina dos Iorubá incluem noz-de-cola – Obí e veneno-amargo – Orógbó, pois a princípio o sabor dessas sementes são adocicadas, em seguida apresentam um forte sabor amargo. Também utilizam pimenta-da-costa – ataare dos quais apresentam um sabor doce-picante que “camuflam” o sabor de outras substâncias.

A preparação de um determinado remédio, a princípio por determinação de Ifá, que através das figuras – Odù, revela a enfermidade que se padece, e prediz como curar e ou mesmo preveni-la, da mesma forma que os Ocidentais os Iorubás acreditam que “a prevenção é melhor do que a cura”. Nesta consulta oracular, será revelado as proibições e os tabu, denominados de eèwò numa espécie de “dieta”. Dentro do filosofia de Ifá, os eèwò pertencem aos Valores Éticos e Morais da Religião, violar uma proibição é cometer um sacrilégio, neste contexto devemos entender que afrontar um eèwò faria com que as doenças propensas se manifestem prontamente no individuo. A maior parte dos religiosos de nossa religião, baseiam-se no fato de determinar um tabu alimentar, pela forma que este molesta o corpo do individuo, seja uma indigestão, diarréia ou uma reação alérgica; sendo este um conceito equivocado, já que quando se estabelece um eewò é possível que este quando violado não faça mal algum de imediato, mas depois de um longo período este se manifeste de várias formas, inclusive em uma doença que poderia ter sido evitada com a obediência prescrita e determinada por Ifá.

Dentro da Medicina Tradicional, para a cura das mais diversas enfermidades se utilizam todos os elementos da natureza, ou seja, tudo aquilo que existem no Reino Animal, Vegetal e Mineral, e se fará uso de cada ingrediente, partindo como base as particularidades de cada Reino, a vibração ou a energia específica que os caracterizam. Para um melhor entendimento, se um individuo padece de uma enfermidade provocada pela ingestão de água infectada, deverá recorrer a certas plantas que vivem precisamente nesse meio ambiente, o que poderia retomar o pensamento de que o “veneno se transforma em antídoto”; da mesma forma que plantas de folhas e flores de coloração vermelha, são utilizadas para o preparo de remédios com a finalidade de curar enfermidades no sangue; plantas que florescem com suas flores amarelas, são utilizadas para o tratamento da icterícia; plantas cuja as folhas apresentem manchas tem a propriedade de curar várias doenças de pele; plantas de características ásperas, de coloração verde escura e com pequenos pontos pretos, tem a propriedade de curar a anemia. Todos esses métodos representavam uma percepção de que o meio ambiente tem “intenção e significado” e que os segredos da boa saúde se encontravam dentro dos limites do entendimento humano. Cabe salientar que as plantas dentro da Medicina Tradicional e da Litúrgica dos Iorubás são classificadas em quatro compartimentos: Folhas da Água, Folhas do Ar, Folhas da Terra e Folhas do Fogo.
Existem várias formas de preparações dentro da Medicina Tradicional, cito as cinco mais utilizadas:

1. ÀGÚNMÚ (Àba – porção + Gúnpò – macerar + Mú – beber) Como seu nome indica, este tipo de manipulação, consistem em certo ingredientes que após serem triturados em um almofariz, são secos ao sol, pulverizados e ingeridos com algum tipo de líquido.
2. ÈTÙ ( pó medicinal ) significa “medicina queimada”; este é o produto de certos ingredientes incinerados ao fogo lento que deve ser movido constantemente. Utilizado para ingeri-lo com algum tipo de líquido ou mel-de-abelha. Também se utiliza para colocar em pequenos cortes pelo corpo, denominados de gbéré.
3. ÀGBO (decocção vegetal) Este elaborado e complexo preparo não consiste somente em plantas e sim nos mais diversos ingredientes, inclusive o sangue de determinados animais. Existem duas classificações deste preparado:
ÀGBO TUTU – macera as folhas em um pilão, acrescenta-se os demais ingredientes, onde são deixados a descansar por um período em água, que podem variar dos mais diversos lugares.
ÀGBO GBÍGBÓNÁ – o mesmo procedimento anterior, porém são depositados em água fervente numa espécie de infusão. Neste são utilizadas determinadas espécies de plantas, pois sabemos que algumas delas são vetados o ato de calor. Aqui não trata-se de ferver ou cozinhar as plantas o que destruiria boa parte de sua propriedades mágico-medicinais. Ambos os tipos de preparos são prescritos para beber, banhar-se ou mesmo lavar apenas uma parte do corpo.
4. ÀSÈJE (Àba – porção + Sè – cozinhar + Je – comer) seu nome indica, cozinhar e comer, significa em outras palavras, alimento medicinal. Este preparo a base de pó com um ou mais ingredientes, são preparados numa espécie de caldo quente, que deverá conter, azeite-de-dendê, cebola, pimenta e sal. Esta sopa se assim podemos denominar, irá acompanhada com pedaços de inhame ou qualquer outro tubérculo, pedaços de carne vermelha ou branca, mas sempre em pratos separados, pois o recipiente do caldo deverá estar na mão esquerda, como em todas as preparações dentro da Medicina Tradicional e utilizará a mão direita para consumir os demais alimentos que acompanha a refeição medicinal.
5. OSE DÚDU (sabão medicinal) também conhecido popularmente como sabão-da-costa do qual serve de base para a maioria dos sabões medicinais. Sua coloração escura se da ao fato de ser elaborado com o óleo escuro de certas sementes e ingredientes pulverizados. Se utiliza para banhos, mas em determinadas ocasiões é preparado especialmente para lavar a boca em minúsculos pedaços sem ingerir ou mesmo sem enxaguar a boca. Neste tipo de “medicina” a mucosa da boca irá absorver as propriedades medicinais.

Cada tipo de medicina deverá ser preparada, através das indicações de Ifá, pois o remédio que cura um individuo, poderia ser prejudicial a outro. Também temos que levar em conta, que muitos dos ingredientes utilizados são antagônicos ou contrários entre si e não devem ser mesclados uns com os outros, pois se corre o risco de em vez de remédio confeccionar um veneno. Outras observações que deve ser feita, é a questão de muitas plantas utilizadas na Medicina Tradicional são consideradas tóxicas e altamente venenosa, então nesta se presta maior atenção na quantidade a ser utilizada na manipulação.

Podemos concluir que para se praticar a Medicina Tradicional dos Iorubás, necessita o Conhecimento, o Entendimento e a Sabedoria milenar de um povo naturalista, que detém o segredo das plantas, elementos naturais, assim com suas combinações precisas, encantamentos e rezas que dão a manipulação uma energia mítica para um perfeito e harmonioso funcionamento do qual consiste em segredos legados aos Babaláwo e aos Olúwo Òsanyìn.

Ewé njé
Oògùn njé
Oògùn ti kò jé
Ewé rè ní kò pé

As Folhas funcionamento
Os Remédios funcionamento
Remédio que não funcionamento
é que tem folha faltando.

Fonte: Guido

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