terça-feira, 28 de dezembro de 2010

ÌTÒN ÀJÀLÁ

É com imensa satisfação que mostro um pouco daquilo que a Mitologia dos Òrìsá ensina Com grande sabedoria através desta lenda.

Ela conta que: Três jovens foram a procura de Elédùmarè em busca de autorização para poderem passar novas experiências no Àiyé (mundo). Pretendiam uma nova possibilidade de reencarnação. Justificando os motivos que os levaram a presença de Elédùmarè e acatadas as justificativas, Olóòrun autoriza que os três procurem ÀJÀLÁ, Alámò tomo Orí, o Oleiro de Cabeça, afim de que a Viagem para o Àiyé seja iniciada por eles. Na caminhada para a casa de Àjàlá dois dos meninos, mais afoitos, se adiantaram. Encontraram um senhor idoso que, sentado ao lado de um monte enorme de Isù (inhame) os amassava com uma agulha. Os dois garotos questionaram o velho para saber como chegar com mais rapidez a casa de Àjàlá. Pacientemente o velho diz:
- Aguardem que eu acabe de amassar estes isù e eu indico para vocês o caminho.
Impacientes os dois garotos reclamaram, pois o velho iria demorar muito tempo para concluir o seu trabalho e resolvem seguir a caminhada sem obter uma resposta, mesmo sem saber direito qual era o melhor caminho. Mas adiante, os garotos encontram um menino, sentado à beira de um rio com um minúsculo recipiente nas mãos. O menino pegava a água do rio e enchia um buraquinho feito na terra. Os garotos viajantes questionaram o menino sobre o caminho que os conduziria mais rapidamente a casa de Àjàlá. O menino olha e responde:
- Logo que eu terminar de passar toda a água do rio para este buraco eu informo como chegar a casa se Àjàlá. Os dois jovens viajantes impacientes resolvem, mais uma vez, não aguardam uma resposta e seguem a caminhada sem rumo certo. Após caminharem longamente indo e voltando, horas andando em círculo, quase que perdidos, já bastantes cansados, os dois jovens chegam ocasionalmente a casa de Àjàlá. Àjàlá era um velho ancião que trabalha modelando cabeças utilizando-se dos mais variados tipos de Elementos da Natureza. Homem muito endividado, cheio de credores, Àjàlá trabalha sempre preocupado de que, a qualquer momento, um credor bata a sua porta e lhe cobre as dívidas que possui. A larga idade e as preocupações com as dívidas e credores fazem com que Àjàlá raramente use da mesma fórmula para criação das cabeças. Sempre sua produção é diferente uma das outras. Nunca há duas iguais. Os dois jovens afoitos e desavisados, desconhecedores das intimidades de Àjàlá batem a porta da casa. Àjàlá se assusta pelas batidas e esconde-se no telhado acreditando tratar-se de mais um credor que lhe bate a porta cobrando. Novamente os jovens batem a porta. Àjàlá pergunta:
- Quem é?
Os jovens respondem:
- Somos enviados de Elédùmarè a fim de que recebamos nossas cabeças.
Sempre desconfiado Àjàlá sorrateiramente desce do telhado.
Ele abre a porta.
Rapidamente recolhe as duas primeiras cabeças que vê pela frente e entrega aos jovens, fechando a porta quase que na “cara” deles.
Sem entender quase nada, cada um deles pega uma cabeça e segue viajem com destino ao Àiyé.
Após andarem muito, em determinado momento inicia-se uma forte chuva.
Os dois jovens não têm onde se abrigar e caminham pela chuva.
As cabeças ficam molhadas, moles, disformes, tortas e rachadas, com pouca utilidade para eles.
Adiante, a chuva para e surge o sol, quente, escaldante.
As cabeças moles e disformes começam a secar.
E assim elas chegam ao Àiyé, com cabeças disformes, tortas e rachadas, com pouca utilidade para eles.
Enquanto isso, lá atrás vem o jovem solitário que, na mesma trilha, depara-se com o velho amassando inhames com uma agulha.
- Senhor como faço para chegar a casa de Àjàlá?
E o velho responde:
- Aguarde que eu amasse estes isù e eu indico para você o caminho.
O jovem pensa então: “se eu ajudar o velho, ele irá terminar mais rápido o trabalho e assim obterei logo a resposta que desejo. O jovem pega uma outra agulha, senta-se ao lado do velho e inicia seu trabalho de ajudar a amassar os inhames.
O velho satisfeito diz:
- Você é um bom rapaz! Vou lhe ensinar algo sobre aquele que procura. Àjàlá é endividado, portanto, não bata a porta dele de forma que o assuste. Quando já estiver próximo da casa dele, comece a chamá-lo pelo nome, grite bem alto que você vem em missão de paz determinada por Elédùmarè. Leve para ele muitos búzios como presente, isso vai ajudar o velho a pagar seus credores o que o fará satisfeito com você.
O jovem ouve atentamente os conselhos do velho enquanto trabalha amassando os inhames. Ao findar a tarefa, o velho ensina ao jovem o melhor e mais rápido caminho para chegar à casa de Àjàlá, e o jovem segue para seu destino.
O caminho ensinado pelo velho faz com que o jovem também passe pelo menino que, com sua pequena vasilha, trabalha enchendo de água o pequeno buraco.
Para cientificar-se de que estava no caminho certo, o jovem pergunta ao menino como fazer para chegar a casa de Àjàlá
E o menino responde:
- Logo que eu terminar de passar toda água do rio para este buraco eu informo como chegar a casa de Àjàlá.
Sempre com a intenção de estar no caminho certo, o jovem decide ajudar o menino e diz:
- Abra uma canaleta, ligando o rio ao buraco, Coloquemos pedras impedindo o curso do rio, desviando-o para a canaleta. Água, em novo rumo, encherá o buraco mais rapidamente.
O menino gosta da idéia do jovem e dois colocam em prática.
Satisfeito com o resultado obtido o menino diz ao jovem:
- Gostei de você! Siga a direção Leste, você encontrará uma trilha grande que o levará direto a casa de Àjàlá. Dou a você, pela sua ajuda, esse saco de búzios que eu colhi. Você deve entregá-lo à Àjàlá afim que ele venha a saudar um pouco dos seus débitos com seus credores.
E o jovem segue sua caminhada.
Avistando de longe a casa de Àjàlá ele já começa a gritar alto:
Sr. Àjàlá, não se assuste! Venho em missão de paz enviado por Elédùmarè e tenho um presente para o senhor.
Àjàlá temeroso, escondido no telhado, ouve a voz do jovem e olha o rapaz que chega
Vê que se trata de um jovem despreocupado, que nada parece com um credor.
Desce então tranquilo para atender o jovem.
Este, logo de chegada, já oferece como presente para Àjàlá o saco de búzios que havia ganho do menino da água.
Então Àjàlá lhe diz:
- Gostei de você meu jovem. O que deseja?
- Vim a mando de Elèdúmarè buscar uma cabeça para que eu tenha novas experiências ao cruzar as fronteiras com o Àiyé.
Àjàlá leva o garoto para dentro de casa.
Mostra-lhe várias prateleiras cheias de cabeças, e mais cabeças, modeladas.
Pega uma com as mãos e, ao acaso e com muita força, joga-a no chão.
A cabeça se esfacela e Àjàlá, balançando a cabeça negativamente, diz:
- Não!
- Tá vendo, meu jovem, aquela não era uma boa cabeça.
Àjàlá repete o ata novamente com outra cabeça que também se desmancha e repete o gesto de negação dizendo:
- Aquela cabeça também não era boa para você, meu bom jovem.
E assim Àjàlá repete a mesma atitude até que encontra uma cabaça que, ao ser atirada contra o chão, não se quebra e pula como uma bola.
Então Àjàlá, mostrando um sorriso, contentemente diz:
- Esta sim é uma boa cabeça meu jovem. Pegue-a e segue teu caminho em paz. Esta é a minha retribuição em troca de suas atitudes.
O jovem agradecido pega a cabeça a cabeça e segue em destino ao Àiyé.
Caminha muito e vem a chuva, mas não causa danos nenhum a sua cabeça.
Em seguida à chuva, vem o sol quente, escaldante e forte, que também não causa prejuízos a boa cabeça recebida de Àjàlá em troca da boa conduta do jovem.
E assim este jovem chega ao Àiyé com sua cabeça intacta, firme e boa, exatamente como havia recebido das mãos de Àjàlá. E assim ela lhe será útil em toda sua permanência no Àiyé.

CONCLUSÃO:
Todo Homem de boa vontade será prestigiado por Èlédùmaré.
A boa conduta; A falta de egoísmo; A compreensão e a ajuda mútua sempre geram recompensas.
Este é o exemplo que esta Ìtòn da Cultura Religiosa Yorùbá deseja que todos aprendam.
A Ìtòn fala por si só, sem necessidades de explicações e esclarecimentos, pois é muito simples e clara, assim como são todos os Òrìsá. Sua mensagem requer uma reflexão grande por parte daqueles que receberam a Graça de Èlédùmaré de poder conhecê-la através da Religião dos Òrìsá.
Esta Ìtòn é um grão de areia na praia dos ensinamentos e conhecimentos que os Òrìsá proporcionam.

Um comentário:

  1. Àse,

    Sobre o oríkì Èsù òta Òrìsà, sugiro ver aqui:

    http://culturayoruba.wordpress.com/livro-dos-yoruba-ao-candomble-ketu/

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