sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

A Cosmogênese Yorubana.

Nos primórdios, nada existia além do Àjàlórún, que repousa no infinito até que em algum momento da existência Ele expira, e seu hálito divino adquire Consciência; é o princípio da existência constituído exclusivamente de Emí (o hálito divino), o corpo de Òbátalá; o Grande Òrisá, o Primeiro surgido diretamente do próprio Oloórun, a energia Cósmica. Essa massa de ar sutil, vai se densificando até se tornar água. Transformando-se em dois elementos. O ar sutil e a água. O ar sutil originado diretamente da matéria que constitui Òbátalá, é Iwá; o princípio da existência, o espírito da criação que habita em todos os seres, o espírito capaz de tornar as idéias sugestionadas em realidade. A parte deste ar, que se condensou até transformar-se em água, é a manifestação de Abá, a Vontade; que outorga propósito e dá direção. Iwá é o espírito da criação, conhecido como Òrísànlá; e Abá é a matéria primoridal, conhecida como Odudua1. Iwá e Abá integrados em sua síntese primordial são num só momento Òbátalá, dintinguidos são Òrísànlá e Odudua. O Espírito da Criação e a Matéria Primordial. O Pai e a Mãe.
Esses elementos são o útero universal; o Igbádu, a Cabaça da Existência; o corpo de Òbátalá, Òrísànlá seu espírito e Odudua a matéria do qual é constituído.
O ar e as águas movem-se conjuntamente e uma parte deles se integram; ou seja, Iwá se integra à Abá, o Espírito penetra na Matéria, Òrísànlá fecunda Odudua; transformando-se em uma bolha ou montículo, uma matéria dotada de forma - uma bolha avermelhado e lamacenta. Òloórun, admirou e amou aquela matéria e soprou o Emí (Sopro Vital, do qual Òbátalá é constituído) sobre ela e com seu hálito deu a vida àquela primeira forma de vida, que ele batizou com o nome de Esú – esfera, o primeiro nascido, o procriado, o primogênito do Universo; que ao receber o Emí se aquece, inflama e provoca a explosão cósmica que rompeu com o silêncio e a inércia, pondo toda a criação em movimento; espalhando-se por toda a imensidão do Orún, fazendo surgir o terceiro elemento que faz o Universo vir à existir: Asé, o movimento, a energia que sustenta o universo e que permite a existência advir dinâmica.
Portanto, podemos afirmar que à princípio temos Oloórun, o Incognoscível que faz surgir Òbátalá (a Criação Latente, o hálito divino, Emí); que se divide em Òrísànlá (o Espírito, as idéias sugestionadas, Iwá) e Odudua (a Matéria, a vontade, Abá) que ao se integrarem novamente faz surgir Esú (a Vida, o Movimento, Asé); que se espalha por todo infinito, formando assim o Òrún.
A explosão cósmica primordial, se reproduz em novas explosões menores; e a cada nova explosão, a cada novo grito de nascimento que Esú corta o silêncio e a inércia; pondo tudo ao seu redor em movimento; surgem novos Orúns; perfazendo um total de nove Òrúns, que se interpenetram e interagem constantemente; não havendo dissolução entre eles. Ao expandir e espalhar o Iwá, o Abá e o Asé por todo o espaço infinito; Esú torna-se o único capaz de conhecer a vibração de cada um dos Orúns, permitindo-o transitar livremente por todas as nove vibrações que se interpenetram; e que não é perciptível aos demais.
Assumindo assim a sua primeira função; o de guardião de todas as nove portas que nos conduzem de um Òrún ao outro.
Oloórun, ao deparar-se com a maravilha que se extendia diante de si; decide preencher todos os Òrúns; e ordena que Òbátalá preencha todos os Òrúns com existências individuais para desfrutarem de tudo aquilo. E assim, Òbátalá; como Òrísànlá (o Espírito-Pai) e Odudua (a Matéria-Mãe) dão início à dança cósmica, a cópula primordial, a partir da qual interagem dentro do Igbadu (o útero universal) os três elementos; Iwá, Abá e Asé; de onde vão surgindo os demais Òrisás, que controlam as relações do que nasce, do que morre, do que é dado, do que deve ser devolvido, dotados de grande equilíbrio, associados à Justiça, são os princípios reguladores dos fenômenos cómicos, sociais e individuais.
São as manifestações da vida que se tornaram consciências energéticas e magnéticas de movimentos lentos, serenos, de idade imemorial, que se dividiram em dois grupos, os Òrisás Funfun, Irun Imolés, que totalizam quatrocentos; mais afinizados com a energia de Òrínsànla, ao espírito da criação e detentores dos poderes masculinos; e os Òrisás Àgbàbàs, Igbá Imolés, que totalizam duzentos; mais afinizados com a energia de Odudua, à matéria primordial e detentores dos poderes femininos, tendo todos eles um Esú, que os torna vivos.
Os principais Irún Imolés são: Òrìsàteko, Òrìsà Akiré, Òrìsà Aláse, Òrìsàjiyán, Òrìsàlufan, Òrìsà Oko, Òrìsà Òkè, Òrìsàròwu, Òrìsà Ajagemo, Òrìsà Olúwofín, Òrìsà Pópó, Òrìsà Eguin, Òrìsà Jayé, Òrìsàko, Òrìsà Olóbà, Òrìsà Obaníjìta, Òrìsà Alajere, Òrìsà Olójó, Òrìsà Oníkì, Òrìsà Onírinjà e Òrìsà Àrówú; e os principais Igbá Imolés são: Òrúnmìlà, Olúorogbo, Obamèri, Orèlúéré, Obasìn, Obàgèdè, Ògún, Obamakin, Obawinni Oreluko, Aje Sàlugá, Èrìsilè, Élésìje, Olósé, Alajó, Èsìdálè, Olóòkun Senyade, Obaresé e Yemowo.

nota*** 1Odudua(Oduá), também conhecida pelo nome de Odulobojé, é o sagrado feminino presente na criação, a Mãe-Terra, a Matéria Primordial d'onde emanaram todos os seres e não deve ser confudida com Odúduwá; “aquele que tem existência própria”, patriarca dos yorubás, e um dos avataras de Òbátalá, que recebeu este nome em particular por cultuar a divindade Odudua. Este é um erro muito comum, entre os diversos pesquisadores e autores sobre as tradições yorubás; por ignorarem que diversas palavras em yorubá têm a mesma grafia e porém fonética diferente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário